Amigos da liberdade de Nicolas Castro
Os amigos da liberdade de Nicolás é um grupo heterogêneo de pessoas que desde dezembro de 2009, nos unimos baixo a consigna de sermos “amigos da liberdade”. O grupo, inicialmente, formado por companheiros e amigos mais próximos a Nicolás Castro, se expandiu rapidamente na comunidade artística local, chegando inclusive a receber apoio desde fora do país. O comunicado inicial, que define a razão de ser desta coletividade foi redigido e enviado pela web, no dia 3 de Dezembro de 2009, data em que os meios de comunicação na Colômbia mostraram a captura do jovem universitário, por fatos que hoje em dia parecem ser produto de uma montagem midiática, do que alguns qualificaram como um “falso positivo judicial”[1]; o comunicado foi o seguinte:
Nicolás Castro de 23 anos, estudante de Belas Artes da Universidade Jorge Tadeo Lozano de Bogotá-Colômbia, foi levado pela policia judicial no dia 2 de dezembro de 2009, acusado de criar um grupo na rede social de internet Facebook, intitulado “me comprometo a matar a Jerónimo Alberto Uribe filho de Álvaro Uribe”. Na Colômbia ele é acusado de instigação a delinqüir segundo o artigo 348 do Código Penal, o qual significa que Nicolás Castro estaria incitando a outras pessoas a cometer o delito de matar a Jerónimo Uribe filho do presidente. Por tal razão, desde o dia 3 de dezembro Nicolás está no Presídio “La Picota” de Bogotá esperando ser julgado. Nós, os “amigos da liberdade de Nicolás Castro”, queremos convidar a comunidade nacional e internacional a se unir a esta causa, pois nós que o conhecemos podemos dizer que Nicolás não seria capaz de atentar contra a vida de um ser, ou incitar a outros a fazê-lo. Suas expressões sempre têm sido pacíficas quando expressa seu desacordo com diferentes situações, como no caso do maltrato animal, a falta de proteção às crianças ou quando manifesta sua posição frente ao consumo; razões pelas quais decidiu ser vegetariano e estar contra às corridas de touros, participar de projetos sociais que vão a favor da infância, organizar venda de frutas e alimentos saudáveis dentro da Universidade Jorge Tadeo Lozano (como forma de gerar opções de consumo dentro da comunidade estudantil), entre muitas outras ações que realiza no seu cotidiano que confirmam as qualidades humanas de Nicolás. Os “amigos da liberdade de Nicolás Castro” apoiamos as palavras que ele pronunciou durante sua primeira audiência: “Eu somente sou um estudante, não sou um instigador, nem um terrorista".
Os Fatos que este primeiro comunicado cita, foram amplamente conhecidos pela opinião pública colombiana, desatando um boom midiático gigantesco, o qual teve cobertura nacional e internacional da imprensa, rádio e televisão. No dia 3 de Dezembro, o rosto de Nicolás já era conhecido por todo o país. A imagem projetada na tela de televisão e nos fragmentos de imprensa local do jovem Nicolás Castro era o clássico retrato do terrorista, que inclusive parecia ter “conexões com Al-Qaeda e afinidades com o regime político da Irã” [1]. Esta situação, que para aqueles que o conhecemos no diário viver de um estudante de artes universitário era o reflexo alarmante de uma mentira a gritos, uma macabra versão de nosso amigo fabricada por aquela maquinaria midiática, tão grande que o tinha engolido. Desde aquele momento ele era um produto empacado, etiquetado e posto ao consumidor, com o típico discurso do medo e do terror.
Esta situação nos conduziu a nos unir como amigos e companheiros de Nicolás. Aquela união foi motivada pelo verdadeiro terror que se produzia em nosso corpo, sentir esse grande poder imensurável, incontrolável, que os meios de comunicação e o estado poderiam chegar a exercer sobre nossa subjetividade como indivíduos. Do medo e do terror nasceu a união, a amizade e a força que combateu o cenário no qual agora éramos partícipes. Desta forma, o pequeno grupo de amigos começou a buscar a forma de expandir a mensagem liberadora, sobre nossa versão (que era verdadeiramente oficial) sobre Nicolás Castro Plested.
Aquela mensagem era por sua vez, uma forma de expandir o grupo amigos da liberdade, de chamar o desconhecido para formar parte dessa comunidade e a ser portador de nossa mensagem. Assim, nós amigos da liberdade de Nicolás geramos uma rede de comunicações num grupo crescente de pessoas (artistas, professores, estudantes, etc.), aqueles que durante os quatro meses nos quais Nicolás esteve na prisão, permitiram criar um lugar para combater o medo e, de igual forma, fazer ouvir a verdadeira voz do estudante universitário, calada por um grande tempo pelos meios massivos de comunicação.

A mensagem que os amigos da liberdade de Nicolás levaram foi transmitida para o público, mediante uma série de ações artísticas levadas a cabo no espaço urbano da cidade, assim como na web onde o caso alcançou um seguimento permanente e onde se buscou expandir os efeitos das ações que se desenvolveram na rua. Entre as ações feitas em Bogotá podemos mencionar “É melhor dar pouquinho mamão”[3], onde se entregava ao transeunte um pequeno jornal com nossa mensagem sobre Nicolás, ao mesmo tempo que se tocava música e se oferecia pequenos pedaços de mamão ao público, fazendo alusão a esta frase popular colombiana. De igual forma, se desenvolveu a ação plástica “O carteiro”, realizada em conjunto com o artista Mario Opazo. Nesta atividade convidavam ao público a se converterem em “carteiro” de uma mensagem sobre a situação e a realidade de Nicolás que era entregue nas ruas e deixada embaixo das portas de casas e apartamentos, para esta atividade se redigiu uma carta que era assumida conceitualmente, como uma prisão. A mensagem convidava a liberar a mensagem, para que fosse replicado na comunidade e no entorno de quem o recebera.

De igual forma, realizou-se uma jornada de impressão em camisetas com mensagens de apoio a Nicolás na Universidade Jorge Tadeo Lozano no primeiro dia de aulas do primeiro semestre de 2010, tempo acadêmico durante o qual o jovem universitário permaneceu preso na “La Picota”. Esta atividade fez parte da ação “O carteiro”, a qual se somou a palestra “A liberdade de expressão na arte” [4], realizada na ASAB (Academia Superior de Artes de Bogotá) como parte das atividades desenvolvidas dentro da mostra de projetos de graduação dos estudantes, com o Doutor José Gregório Hernández, ex-magistrado da Corte Constitucional, o Doutor Guillermo Hoyos, Diretor do Instituto Pensar da Universidade Javeriana e Victor Laignelet, diretor de Artes da Universidade Jorge Tadeo Lozano.


Paralelamente a estas atividades o artista Mario Opazo, quem já tinha entrado no grupo amigos da liberdade de Nicolás na ação plástica “O carteiro”, levou a cabo uma performance que intitulou “Aquí falta alguém”, no campus da Universidade Jorge Tadeo Lozano, como resistência ou rechaço ante o aprisionamento do estudante. Com os olhos vendados e um livro de filosofia de Platão em sua mão esquerda, percorreu os corredores e diversos lugares da universidade no horário de classes diurno, desde as nove da manhã até as cinco da tarde no dia 29 de Janeiro de 2010.


O apoio ativo deste artista local se somou um tempo depois, o respaldo da Internacional Errorista, que a partir do grupo Etc. da Argentina criaram um movimento mundial, cujo principio se baseia na reivindicação do erro como principio liberador do homem. A Internacional Errorista realizou uma manifestação no Fórum Social Mundial em Porto Alegre - Brasil, onde se fez presente o apoio àliberdade imediata de Nicolás.

Internacional errorista
Primeira Declaração
“Todos somos erroristas”.
1.- O “Errorismo” sustenta seu conceito e sua ação sobre a idéia que o “erro” é o novo principio ordenador da realidade atual.
2.- O “Errorismo” é uma posição filosófica equivocada, ritual da negação, uma organização da inexistência desorganizada. A falha como perfeição, o erro como acerto.
3.- O campo de ação do “Errorismo” abarca todas as práticas que tendem para a LIBERAÇÃO do ser humano e da linguagem.
4.- A confusão e a surpresa são as ferramentas preferidas dos “erroristas”.
5.- O humor negro e o absurdo são os métodos erroristas por excelência.
6.- Os “lapsos” e fatos falhos são nosso deleite.

Depois de ter passado quase dois meses desde que um juiz de controle de garantias dera prisão domiciliar a Nicolás Castro, em um processo que vimos como todas as provas com que a Fiscalização o inculpava e com as quais justificou seu confinamento durante quatro meses na prisão La Picota de Bogotá, tem caído uma a uma por erros de procedimento e manipulação. Onde inclusive os advogados de Jerónimo Uribe, filho do presidente da república Álvaro Uribe e supostamente “vítima” das ameaças postadas na rede social de internet facebook, têm declinado sua intenção de seguir com o caso, mencionando seu interesse para que o jovem volte a seus estudos e a sua vida ordinária. Sem mencionar que até a presente data não existiram provas que vinculem diretamente a Nicolás na criação do grupo virtual “me comprometo a matar a Jerónimo Alberto Uribe, filho de Álvaro Uribe”. Nós amigos da liberdade de Nicolás seguimos esperando o fim do processo que, desde quarta-feira 02 de dezembro de 2009, enfrenta a um jovem de 23 anos estudante de Belas Artes contra o maior poder da mídia e governamental, que uma pessoa comum jamais imaginaria sequer ver em seus pesadelos mais crus. Esta situação, que pareceria de um livro de Kafka, até a data se mantém vigente, esperando fechar este duro capítulo de uma narração que poderia voltar a aparecer em sua tela de televisão ou no próximo cinema, muito perto de você.
Notas:
[1] http://www.lasillavacia.com/historia/9091
[2] Para maior informação dirija-se à página de internet dos amigos da libertade de Nicolás, para sessão Blogroll: http://amigosdelalibertaddenicolascastro.wordpress.com/
[3] Para ver o registro da ação dirija-se a: http://www.youtube.com/watch?v=j_jxF0dpKHo
[4] Para escutar o registro completo da palestra dirija-se a: http://www.goear.com/listen/393d6ae/conversatorio-del-2-de-febrero-en-la-asab-sobre-el-caso-de-nicol%C3%A1s-castro-y-la-libertad-de-expresi%C3%B3n-conversatorio-asab


