FREE

Irit Rogoff. Tradução: Unamorinmanente

- Quem quer saber?

- Eu.

- O que você quer saber?

- Não sei!

Em algum momento do ano passado propus na minha instituição, Goldsmiths, University of London, que criássemos uma academia livre, adjacente a nossa instituição e lhe daríamos o nome de “Goldsmiths Free”. As respostas ante esta proposta, que não eram sorrisos desbotados frente a sua    natureza, aparentemente, adolescente oscilavam entre a perplexidade – “O que obteríamos com isso?” –, e o pânico – “Como poderíamos financiar isso?”. Ninguém discutiu o que seria ensinado ou de que maneira se iria distinguiria o trabalho feito ali do que se fazia em uma instituição como a nossa, onde  se pagam honorários, se outorgam graus e dirigem investigações. Por suposto esse era o ponto: O que faria diferente essa instituição – não só em termos de redefinir o lugar de entrada dentro da estrutura (exonerada de custos de inscrição ou de matrícula e de qualificações prévias) ou seu modus operandi de trabalho (não baseado na obtenção de graus, sem exames e sem estar sujeito aos mecanismos estaduais de monitoramento e avaliação) -, e como se poderia localizar ali um tipo de conhecimento distinto. E sobre isso era o que eu queria que se pensasse, sobre a diferença no próprio conhecimento, sua natureza, seu status e sua influência.

A classe de conhecimento que me interessava analisar na minha proposta tinha a ver com um entendimento que não estivesse concebido pelas ordens disciplinares ou temáticas, que pudesse ser válido em relação a um problema urgente – e não com problemas predefinidos pelas convenções do conhecimento -, e que atendesse melhor as pressões e lutas da contemporaneidade. Quando o conhecimento está “desenmarcado”, está menos fundamentado genealogicamente e pode se deslocar com maior facilidade para adiante do que para atrás. Essa forma de conhecimento teria muito a ver, obviamente, com tudo aquilo que adquiri com minha experiência no mundo da arte (em grande parte um equipamento de permissões que vêm no saber de um reconhecimento de suas faculdades performativas – aquilo que o conhecimento permite, mais que aquele que o é). Porém as permissões que localizei no mundo da arte vem com a sua própria carga de limitações, uma tendência a reduzir as operações complexas da especulação a sua ilustração ou a um gênero que poderia se exemplificar visualmente como “estudo” ou “investigação”.  Poderia haver, me perguntava, outro modo no qual o conhecimento possa se liberar sem ter que assumir uma ampla série de maneirismos genéricos, sem se converter numa tropa estética posta em mãos de curadores famintos por encontrar o último “giro”?

Seguramente as cabeças entrechocariam! A noção de “liberdade” tem sido tão degradada por seu uso em expressões como  “livre mercado”, as propostas discutíveis da nova economia “livre” da Internet ou as promessas historicamente falsas de liberdade individual, que resulta ser bastante difícil encontrar o que tem alem desses lemas vazios. Sem embargo, a possibilidade de produzir alguma proximidade interrogativa entre “conhecimento” e “gratuidade” parece tanto inevitável como irresistível, em particular desde a perspectiva das lutas atuais sobre a educação em Europa.

A atual direção para o conhecimento e, por conseguinte, indo a alguma forma de sua expansão e transformação, parece muita mais importante que a simples discussão sobre as categorias em que este opera. Para tentar esta transição, gostaria de pensar em várias questões que considero relevantes:

 

1.- Primeiro, e sobre tudo, o que é o conhecimento quando é  “livre”?

2.- Existem lugares, tais como os espaços da arte, onde o conhecimento pode ser mais “espontâneo” que em outros?

3.- ¿Quais são as implicações institucionais de albergar um conhecimento que seja “gratuito”?

4.- ¿Quais são aquelas economias do “livre” que poderiam provar uma alternativa ao mercado e das economias de obtenção de resultados e de orientação através da comparação do conhecimento institucionalmente estruturado no presente? 

Evidentemente necessito pensar sobre as lutas em torno da educação, suas localizações alternativas, os tipos de economias emergentes que poderiam ter algum interesse no seu replanejamento y, finalmente, na maneira que a “educação” pode ser percebida como um modo organizacional alternativo, não de informação ou de conhecimentos formais – com seu mercadejo concomitante -, mas sim como outra forma de estar juntos, não predeterminada pela obtenção de logros, mas sim pelo seguimento de direções. Aqui, tenho em mente um processo de “singularização do conhecimento”, que discutirei mais adiante.

Obviamente que, em relação com “livre” não tenho em mente certa forma de liberação romântica. O conhecimento não pode ser “liberado”, se encontra infinitamente incorporado a largas linhas de transformações que se enlaçam de formas inexplicáveis para produzir novas conjunções. Nem tampouco tenho em mente o romanticismo do conhecimento de “vanguarda”, com seus modos de confrontação da “inovação” como ruptura e partida. Nem estou particularmente interessado naquilo que se tem chamado “interdisciplinaridade” que, com suas insinuações de mobilidade e “cooperação” entre disciplinas, deixa intactas de fato todas aquelas membranas de divisão e suas lógicas de separação e compartimentação.

Nem tampouco, finalmente, (e digo isto estando algo qualificado), é minha principal meta desfazer as categorias disciplinárias e profissionais que tem dividido e isolado corpos do conhecimento uns de outros para, assim, promover um campo heterogêneo de corpos povoados de conhecimento similares às estratégias de mercado que asseguram a eleição e multiplicidade, e dignificam as práticas de segregação epistemológica através da produção de infinitas novas subcategorias para corpos herdados de conhecimento contido e nomeado.

Existe uma relação irritante entre liberdade, individualidade e soberania, que possui uma relevância particular no contexto do que se está discutindo aqui, posto que o conhecimento e a educação tem um ponto de apoio tanto em processos de individualização como de socialização. Hannah Arendt expressa isto concisamente quando adverte que:

Politicamente, esta identificação de liberdade com soberania quiçá seja a conseqüência mais perniciosa e perigosa da equação filosófica de liberdade e livre vontade. Por esta via, qualquer uma das duas conduz a uma negação da liberdade humana – a saber, que se todo homem pode realizar-la, então ninguém síria soberano -, ou a idéia de que a liberdade de um homem, grupo ou corpo político somente pode ser obtida ao preço da liberdade, ou a soberania, de todos os demais. Dentro do marco de trabalho conceitual da filosofia tradicional, certamente resulta bastante complicado compreender de que forma a liberdade e não a soberania podem existir juntas ou, em outras palavras, como pode outorgar liberdade a homens que vivem baixo condições da não soberania [1].

Finalmente, meu interesse é trabalhar ao redor de ambos conceitos, liberdade e soberania; através de operações de “singularização”. Talvez este seja o conhecimento des-individualizado, des-radicalizado –no sentido convencional da definição do radical como ruptura - e ainda operativo dentro dos circuitos da singularidade – do “novo modo relacional do sujeito”-, que me preocupa  nesta instância.

Desta forma, a tarefa que tenho entre as mãos tem menos a ver com um tipo de liberação do confinamento do que com um desfazer das próprias condições deste confinamento.

Enquanto a circulação ilimitada de capital, bens, informação, alianças hegemônicas, temores populistas, patrões de excelência, recentemente, globalizados, etc., funcionem como alguns dos distintivos da última fase neoliberal do capitalismo, nós não podemos simplesmente equiparar  cada forma do ilimitado para julgá-las a todas como igualmente insidiosas. “Livre”, em relação com o conhecimento, me parece que tem menos poder em sua expansão que num movimento fundamentalmente centrípeto; menos em um processo de penetração e colonização do todo, segundo o modelo implacável do capital, que em alcançar entidades inesperadas e logo representá-las, projetando-as dentro do campo da percepção.

Este artigo está publicado originalmente em: http://e-flux.com/journal/view/120. Última entrada: maio 25 de 2010.

 

NOTAS

1.- Hannah Arendt, “What is Freedom?”, capítulo VI “Revolution and Preservation” em The Portable Hannah Arendt, (ed. Peter R. Baehr) (Penguin, Londres, Penguin, 2000), p.455.