Seduções e Rupturas
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Santiago Eraso
Parece que as atuais políticas culturais hegemônicas estão cada vez mais fascinadas e seducidas pelos modelos de produção cultural baseados sobre todo na espectacularização da produção subjetiva, na banalização dos discursos, a descontextualização das obras e sua conseguinte mercantilização.Neste sentido, a proliferação de museus, centros de cultura contemporânea e acontecimentos artísticos -bienais, feiras- tem muito que ver sobre todo com una visão utilitária da cultura, na que esta funciona, sobre todo, como escaparate para o consumo passivo -ou ativo para os que dispõem de recursos-, elemento de promoção turística, reforma urbana ou aberta propaganda política e não como um médio de autêntica construção social. Não há que ir muito longe para encontrar exemplos concretos que funcionam como paradigma destas estratégias. Em Donostia/São Sebastião se consolida uma feira de fotografia, que baixo os auspícios de um coleccionista privado, se está convertendo num dos referentes principais para prover de conteúdos ao futuro Centro Internacional de Cultura Contemporânea que se prevê construir na antiga fábrica de tabacos, ubicada no centro topográfico da cidade e com más de trinta mil metros quadros para sua utilização. Em seus imensos espaços, ainda assim re-habilitar e coincidindo com a feira, se ha organizado una mostra de vídeo -A atualidade revisada- que reproduze até a última conseqüência os clichês do internacionalismo artístico mais convencional; a monumentalização da experiência estética, por causa a uma desmedida utilização das técnicas de reprodução; a construção de espacios “fascinantes“ que desenvolvem estrategias de sedução e alienação do espectador; a anulaçnao de cualquier posibilidade de interação que não pase pela simples contemplação; a neutralização da crítica e por suposto o ocultamento e negação de todo tipo de informação e documentação que permita uma mutação nos comportamentos dos ciudadãos e sua relação com as obras apresentadas. Nestas condiciões, o público muitas poucas vezes se detem na frente de un vídeo de principio a fin e sua atenção rara vez é intensa e in-interrupta.

Faz muitos pocos meses, coincidiendo com o último Festival de Cine se celebró em Donostia/São Sebastião um “evento cultural” - eufemismo que a organización utilizou para nombrar o acontecimiento festivo- que sirvió para celebrar o fechamento da Bienal Manifesta. O fato teve lugar tambem em Tabacalera.[*]
Durante aquela festa, à que assistiram varios centos de invitados, se apresentó um dos mejores trabalhos que se pude ver em Manifesta: Route 181, um documental sobre o conflito palestino, realizado por Eyal Sivan e Michel Khleifi. O filme a apresentamos em Arteleku com ocasão da celebração do seminario Representações Árabes Contemporâneas. Discursos críticosey pensamento político coordinado por Gema Martín Muñoz. Agora bem, a organização do “evento cultural” não teve ninhum reparo em descontextualizar sua proyeção e emitirla na fiesta, produciendo um efeito de extranhamiento e estetização tal que o trabajo ficou convertido em simples decoração, enquanto os assistentes à festa se deleitaban entre “pintxos”[**] sofistados e helados.

Por nossa parte, projetamos o documental no contexto de um seminario que tratava de desvelar as contradições nas que se produz a subjetividade no mundo árabe e intentando conectar com públicos específicos. Este projeto se inscribe numa rede máis amplia de colaborações que permite uma reflexão continua e ininterrumpida mediante um processo participativo de todos os atores que participam na amplia rede de colaborações internacionais. Do mesmo modo, temos chegado a um acordo com a productora para editar o filme e adicionarla à publicação que recogerá as ponencias dos participantes e das intervenções dos assistentes ao seminario. Tudo este material se encontra disponivel em nossa página de intenet e em algum momento fue emitido ao vivo pela internet.

Muitos agentes e productores culturais levamos anos tentando re-pensar os medios de produção e recepção da imagem-tempo para garantizar umas condicições mínimas de visibilidade das obras. Neste sentido, tratamos de desenvolver fórmulas que permitam uma mayor e melhor adecuação entre o receitor e as condicições do espaço / tempo que se necesitam para que a interação se produça nas melhores circunstancias. Este trabalho supõe, por suposto, uma menor eficacia mediática e processos de produção menos espectaculares baseados, sobre todo, em conseguir o máximo compromiso entre o autor, o análisis do contexto no que surgem as obras e o receitor que passa a ser sujeito activo.


Desacordos. Exposição. Mutações do Feminismo. Oficina de Diane Torr. Arteleku 2005
Catherine David, diretora da Documenta X, faz pouco, numa entrevista para o projeto Desacordos diz que nos anos 90 se produz o agravamiento de uma cultura espectacular, mediática, que supõe o abandono de qualquier tipo de política cultural que tenha que ver com a produção e transmissão da complexidade social, e com a toma de conciência crítica dos falhos e faltas de dita sociedade. Como consecuência se produz uma demissão generalizada de todo tipo de compromisso cultural, um compromisso que é sempre político. Tras os 90, o que fica bem claro é que se, de um lado, há todo um setor do mundo da arte que se alinea com essa espectacularidade, homogeneidade e evanescencia da cultura dominante, existem a parte outras prácticas que tem máis futuro e que são as que tem que ver con processos de longa duração e com espaços muito heterogéneos. Neste sentido, Martha Rosler, da que tomo enprestado o título deste texto, redunda no que o trabalho artístico se deve centrar não só na produção, exposição ou difusão, sim não no contexto social e político que o determina.
A pretendida “neutralidade” da arte e a cultura respeito a o político e á socialização do espaço público pode conducir, deliberada ou inconscientemente, uma parcialidade vergonhoza que ampara estrategias de privatização de todo tipo de experiência. Em nosso tempo, a pertenência irrenunciavel da arte e a cultura ao compromisso social, se encontra obstruida pelas condições objetivas de certas políticas dominantes e a hegemonía consecuente de determinadas prácticas artísticas e culturais, empenhadas em legitimar certas actitudes complacentes e um sistema que impide a visibilidade de outras formas emergêntes de produção cultural. E como diz muito bem Marius Babias, em seu texto Produção de sujeito e prática artística-política, publicado no Zehar nº 55, em perpetuar um sistema que reforza a função da arte e a cultura como mecanismo socio-político de integração, em vez de, como anticiparem as vanguardias, como medio para liberar as posibilidades de emancipação.
Trata se de perguntarnos cómo e até ónde é posivel pensar e actuar de outra maneira. Parece que ao exercicio de determinadas práticas culturais se lhe impõe um caráter decididamente sacrificial e, em alguns casos, agónico, e em antagonismo aberto com os consensos da opinião pública e o discurso político dominante. Sem duvida, o límite pode ser transgredido porem se recomponhe de inmediato. Em esse desplazamento continuo é onde podemos abrir espaços para repensar as relações do sujeito, as palavras e as cosas, crear novas formas, maneiras de ser e estar, outros modos de pensar. Tambem em esse antagonismo entre asimilação e resistência se trata de pensar em estructuras de produção social e colectiva que acentúem as perspectivas políticas da práctica cultural. Neste marco, onde o espaço público adquiere sua máxima significação, se trata de alertar sobre estrategias culturais de liquidação que impidem o mantenimiento e desenvolvimento de espaços para a experimentação e de projetos de innovação. A pesar de certas estrategias políticas que promuevem sua marginalização crecente, sobrevive e continúa evolucionando uma forma de práctica artística que apunta a novas possibilidades de ressistencia cultural e à construção de redes críticas nas que “intelectuais específicos”, no sentido foucaultiano, se unam para formar um auténtico intelectual colectivo que possa dirigir seus pensamientos, ações e rupturas de manera independiente.
Neste sentido Tester é um projeto que ha intentado ser consecuente com estas premisas políticas contrapondo a construção de modelos organizativos e sistemas de produção renovados às prácticas culturales hegemónicas e, do mesmo modo, à retórica de uma crítica muitas vezes pensada desde o simples espíritu destructivo.
Nossa apuesta se orienta nesta dirección. Não se trata de negar a existencia de diferentes maneras de entender a acción cultural, sim não de posibilitar a emergência de novas e impedir a desaparição de outras, de tal maneira que a diversidade e a heterogeneidade possa seguir ocupando um lugar no complexo mapa cultural onde se inscribe Arteleku e manter o valor añadido que a o longo de estos anos ha incorporado o tesido social.
Santiago Eraso é gestor cultural. Reside em Tolosa, Gipuzkoa. Desde faz dizoito anos dirige o centro de arte e cultura contemporânea Arteleku em São Sebastião, País Vasco, Espanha.
Notas:
*.- O autor se refere a algunas localidades do Pais Vasco do qual ele é residente.
**.- É uma palavra em euskera ou lenguagem vasco que designa um pedasinho de pão sobre o que se colocam diferentes poucos de comida e se utiliza em brasil e colômbia em coquetéeles e eventos especiais, enquanto no Pais Vasco e uma costume comer-os.
1.- Representaçnoes árabes contemporáneas é um projeto dirigido por Catherine David e organizado por Witte de With, Rotterdam e á Fundação Antoni Tápies de Barcelona, em colaboração com a Universidade Internacional de Andalucía (UNIA arteypensamiento) e Arteleku (Diputación Foral de Gipuzkoa).
2.- Desacordos. Sobre arte, política e esfera pública no Estado espanhol é um projeto em coprodução entre Arteleku-Diputación Foral de Gipuzkoa, Museu d’Art Contemporani de Barcelona-MACBA e Universidade Internacional de Andalucia-UNIA arteypensamiento. www.desacuerdos.org
3.- Tester é um projeto coordinado pela Fundação Rodriguez. Está enfocado à produção e difusión de propostas artísticas contemporâneas. Especialmente as relacionadas com as novas posibilidades tecnológicas. Utiliza a tecnología como ferramenta para a produção, como medio de comunicaão entre os participantes e como vehículo para a difusión do proyecto. TESTER quer prestar atenção a ámbitos locais (internacionais) de creação, que não tem presencia ou visibilidade nos circuitos internacionais ou que não se conhecem atraves do panorama hegemónico das artes visuales. É um sistema de detecção de actividade creativa, proposto como projeto em processo, como rede e como estructura de produção.
Conta com a participação de diferentes nodos de produção: Marina Grzinic –Eslovenia -, Oliver Ressler –Viena -, Marcus Neustetter – Johannesburg -, José Carlos Mariategui- Lima- y los artistas Tanja Ostojic, Masaki Hirano, Ralo Mayer, Philipp Haupt, Sejla Kameric, David Throrne, Usha Seejarim, Robin Rode, Kathryn Smith, Stephen Hobbs, Diego Lama, Gabriela Golder, Iván Lozano, Lucas Bambozzi, Yael Katz, Kirmen Uribe, Ibon Saenz de Olazagoitia, Hacklab Leioa, Zoran Pantelic, Kristian Lukic, Trinity Session, Iñaki Arzoz, Andoi Alonso, Kien Nghi Ha, Shulin Zhao, Jorge La Ferla.


